[ENTREVISTA] Mieloma Múltiplo e a Doença Óssea

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  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 15/09/2015 - Data de atualização: 15/09/2015

O médico explicou na entrevista qual o papel do ortopedista em uma equipe de tratamento da doença e orientou sobre a prática de exercícios físicos supervisionados.

Também, Dr. Etchebehere alertou para a importância da valorização da queixa: "O mais importante é que os médicos, os pacientes e os cuidadores, fiquem atentos às dores que não são habituais, que se acentuam ou que aparecem mesmo com movimentos pequenos. É a valorização da queixa”.

Confira a entrevista na íntegra e multiplique a informação!

Instituto Oncoguia - Porque o mieloma múltiplo causa dores e fraturas ósseas?

Dr. Maurício - De forma geral, a dor decorrente do mieloma múltiplo acontece porque o tumor enfraqueceu determinado osso, esse osso está prestes a quebrar ou quebrou, ou em razão do crescimento do tumor e a consequente compressão de uma estrutura, como as raízes dos nervos próximos das vértebras.

De forma geral, o paciente se queixa de dores em locais que estão enfraquecidos pelo tumor e onde haverá uma fratura. Há outros fatores que causam dor, mas aquela mais aguda, mais forte, é causada pela fratura, quase fratura ou compressão dos nervos.

Instituto Oncoguia – Mas a fratura óssea é mesmo muito comum nos pacientes com mieloma múltiplo? Pode ser um fator importante para o diagnóstico desse câncer?

Dr. Maurício - É muito comum. Em alguns casos, é a primeira manifestação da doença. Mas muitas vezes o diagnóstico pode acabar sendo retardado, por exemplo, nas situações em que uma fratura de coluna em pessoa idosa é confundida com fratura decorrente da osteoporose. De fato é difícil distinguir, e às vezes nem mesmo com a biópsia é possível fechar o diagnóstico.

É comum também que o paciente procure por um médico ortopedista ou clínico com queixa de dor difusa, o que pode levar ao falso diagnóstico de doenças reumatológicas, ou de fibromialgia; confunde-se, principalmente, pois as lesões podem não aparecer no exame de Raios X no início da doença.

Instituto Oncoguia - Existe, no treinamento dos residentes em geral, uma abordagem sobre a investigação mínima de mieloma múltiplo como parte do diagnóstico diferencial de dores?

Dr. Maurício - Sim. Nas residências médicas essa informação vem sendo mais disseminada, e aqueles profissionais com formação sólida, em instituições que oferecem serviços de oncologia, são acostumados a lidar com isso.

Há situações hoje em que nós, médicos ortopedistas, devemos observar as ‘bandeiras amarelas e vermelhas’, e isso é sabido. Algumas dessas bandeiras são dor lombar há mais de três meses, antecedente de câncer, traumatismo e febre. Assim se um paciente com mais de 50 anos está sentindo dores ósseas há mais de três meses e apresentou uma fratura na vértebra, por exemplo, que não está associada à osteoporose, a causa tem que ser investigada.

O diagnóstico do mieloma múltiplo ainda é, sim, um pouco retardado, pois esse representa apenas 1% dos cânceres. Mas o acesso à ressonância magnética, que não é mais um exame complexo, permite diagnosticar o paciente com mieloma com mais rapidez. No entanto, como sabemos, o problema ainda reside na rede básica de saúde onde o acesso a exames mais complexos ainda é difícil.

Instituto Oncoguia – Qual o papel do ortopedista no tratamento do mieloma múltiplo? Em que momentos do tratamento ele atua?

Dr. Maurício - A doença óssea é dividida em situações de risco de fratura e não risco de fratura. O paciente é encaminhado pelo onco-hematologista ou oncologista ao médico ortopedista quando há risco em locais propensos a fraturas graves, como no quadril - que podem deixar o paciente acamado e com muita dor.

Nessas situações o ortopedista age no sentido de evitar a fratura, a partir de um procedimento cirúrgico profilático, e em geral aquela lesão desaparece. Nas lesões tratadas com quimioterapia, e que geralmente desaparecem, o osso pode ficar com uma espécie de cicatriz; nessas situações o ortopedista também tem que atuar se houver risco de fratura.

Em uma equipe de tratamento do mieloma múltiplo, o onco-hematologista é o coordenador – quem define a linha de tratamento - e o médico ortopedista representa aquilo que chamamos de apoio matricial. É importante ressaltar que toda vez que se faz um tratamento ortopédico há a intervenção posterior do fisioterapeuta, para proporcionar a reabilitação do paciente.

Instituto Oncoguia - Que recomendações são importantes aos pacientes para protegerem-se das fraturas?

Dr. Maurício - Primeiro de tudo, uma afirmação fundamental: A gente sempre dará solução para os problemas. Há recursos para isso. Segundo ponto muitíssimo importante, é que os pacientes, cuidadores e médicos precisam valorizar as queixas, as dores, principalmente as dores nos membros.

A cintilografia, que é um excelente exame para outros tipos de cânceres, no caso do mieloma múltiplo não consegue dar o real mapeamento da localização da doença. O que quero dizer é que a parte clínica é mais importante no caso dessa doença e, então, se o paciente está com dor ele precisa posicionar o médico que o acompanha.

Não queremos que o paciente sofra com dor, mas sim que mantenha a sua atividade funcional. Que ande, que vá ao shopping, que passeie (...) que siga com suas atividades diárias na medida do possível e nas melhores condições.

Instituto Oncoguia - É indicada ao paciente com mieloma múltiplo a prática de exercícios físicos? Quais são os exercícios mais (e menos) recomendados? Existem momentos do tratamento em que o paciente deva parar de praticar qualquer atividade?

Dr. Maurício - Isso depende da localização de cada tumor. Os pacientes com lesões na coluna devem evitar peso e esforços com flexões muito grandes da coluna. Mas se o paciente já está estabilizado (operado ou com prótese) deve buscar fazer atividades físicas regulares. A gente sabe que se ele mantiver uma atividade física regular que não seja extenuante, como caminhar, isso será muito bom para ele. A musculação bem orientada é bastante indicada, desde que seja feita com a ciência e a supervisão dos médicos que acompanham o paciente e orientada por um fisioterapeuta ou preparador físico.

Instituto Oncoguia - A alimentação balanceada pode colaborar com o fortalecimento dos ossos no caso do pacientes com mieloma? Se sim, que alimentos são indicados?

Dr. Maurício - No tratamento do mieloma, em geral, os clínicos e onco-hematologistas prescrevem medicações para a manutenção do cálcio dos ossos. Mas como na osteoporose, alimentos com cálcio e complementação com Vitamina D são positivos.

A alimentação balanceada é importante e dará um suporte geral ao paciente, mas para isso é necessária a orientação de um nutricionista.

Instituto Oncoguia - Algo mais que o senhor considere importante informar ao paciente?

Dr. Maurício - O mais importante é que os médicos, os pacientes e os cuidadores, fiquem atentos às dores que não são habituais, que se acentuam ou que aparecem mesmo com movimentos pequenos. É a valorização da queixa. Um ortopedista de referência, que conheça o paciente e o acompanhe nos momentos necessários é também muito importante.






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