Ela descobriu câncer de ovário após inchaço na barriga e calça não fechar

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  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 09/05/2022 - Data de atualização: 09/05/2022

Um botão da calça jeans que não fechava. Esse foi o primeiro indício que fez a estudante Anne Carrari, 47, perceber que o inchaço na barriga não era normal. Um teste de gravidez descartou a possibilidade de uma quarta gestação. Com um inchaço abdominal progressivo e persistente, em menos de um mês, ela procurou três médicos, os dois primeiros disseram que eram gases e que ela não precisava se preocupar.

No terceiro atendimento, dentro de um pronto-socorro, ela recebeu o diagnóstico de câncer de ovário, já em estágio metastático aos 40 anos. Sete anos depois, ela se dedica à missão de alertar outras mulheres sobre a doença e se diz mais feliz, realizada e com propósito.

"Um dia percebi um inchaço na barriga, fui colocar a calça jeans e o botão não fechou. Achei estranho porque conheço meu corpo, não tinha engordado e estava seguindo a mesma rotina. A calça foi o primeiro indício de que algo não estava normal. Em uma semana, o inchaço aumentou.

Mesmo sem alteração menstrual, suspeitei que poderia estar grávida, fiz um teste e deu negativo —já tenho três filhos, a Camila, o Dereck e o Danilo.

Decidi ir ao meu ginecologista, ele disse que eram gases, me passou um remédio antigases e disse para eu não me preocupar porque meus exames de rotina estavam em dia. Uma semana depois, o inchaço aumentou, fui ao pronto-socorro, a médica pediu um raio-X, mas não deu em nada.

Ela confirmou que eram gases e pediu para eu intensificar a atividade física que ia passar. Fazia caminhadas para tentar 'aliviar os gases', mas a cada semana minha barriga só aumentava.

Após três semanas, o inchaço só piorou, a essa altura, as calças jeans não serviam mais, só usava vestidos, legging e moletom. Já estava com uma barriga que visivelmente parecia de uma mulher grávida. Comecei a me sentir exausta, cansada, um peso no baixo ventre e incômodo para dormir. Fui ao pronto-socorro mais uma vez.

Não me sentia ouvida pelos médicos, a impressão que tinha é que eles não achavam o meu caso sério o suficiente para investigar. Nesse terceiro atendimento, contei tudo o que tinha acontecido para médica e pedi a ela para solicitar algum exame de imagem.

Ela ficou brava comigo, disse que quem direciona a conduta é o médico e não o paciente. Acho que por ter notado o meu desespero, acabou pedindo um ultrassom abdominal. O resultado mostrou uma ascite volumosa (líquido na cavidade abdominal) —ela suspeitou de uma hepatite medicamentosa e pediu uma tomografia.

Na tomografia, foram localizados inúmeros nódulos por todo o meu abdome, no peritônio, no fígado e nos ovários. Fiz mais exames, entre eles o marcador tumoral para tentar identificar o tumor primário, a suspeita era de câncer de ovário. Só após a cirurgia, seria possível fechar o diagnóstico.

Num primeiro momento a ficha não caiu, eu disse apenas: 'Vamos fazer o que precisar ser feito para eu ficar bem', não tinha noção da gravidade do meu caso.

Fui para a cirurgia, os médicos fizeram o estadiamento da doença, retiraram as duas trompas, os dois ovários e o útero, e foi confirmado o câncer de ovário, em estágio 4 —já estava com metástase no fígado e no peritônio.

Três dias depois comecei a quimioterapia e fiquei assustada. Sofri com os efeitos colaterais: fadiga, enjoos, vômitos, mal-estar, dor no corpo, febre e inchaço. A queda de cabelo foi rápida, em 15 dias já caíram os primeiros tufos e senti uma dor no couro cabeludo. Minha filha raspou meu cabelo em casa mesmo.

Ao me ver careca no espelho, não me reconhecia, a sensação era ruim, mas fui me adaptando aos poucos —às vezes assumia a careca, outras vezes usava lenços e perucas.

Ao iniciar o tratamento, fui na internet procurar sobre câncer de ovário, me sentia culpada e me perguntava como tinha chegado aquele ponto tão rápido. Sempre fui tão esclarecida quanto à minha saúde, me cuidava, estava com meus exames ginecológicos em dia.

Nas minhas pesquisas, descobri poucas informações sobre a doença: ela é silenciosa, não tem rastreamento efetivo, apresenta sintomas inespecíficos —diferente do câncer de mama, por exemplo.

Também descobri que mais de 70% das mulheres com câncer de ovário já são diagnosticadas em estágios avançados, com metástase, que foi o meu caso, e que nesses quadros a taxa de sobrevida era menos de 20% em 5 anos, ou seja, a chance de eu estar viva após cinco anos era baixa.

Fiquei indignada de não ter muitas informações sobre o assunto, de não existir campanhas de conscientização, de nunca ter ouvido nenhum ginecologista falar sobre. Jamais poderia imaginar que um inchaço abdominal poderia ser sinal de um câncer de ovário.

Senti uma necessidade grande de encontrar uma mulher que já tivesse passado pela doença e me contado como foi. Instintivamente digitei 'sobrevivi ao câncer de ovário', mas não encontrei ninguém. Me senti sozinha, com a sensação de não pertencimento e com medo.

Resolvi criar meu Instagram, exatamente com esse nome (@sobrevivi_ao_cancer_de_ovario), para que as mulheres me encontrem, e elas me encontram, e a gente se conecta. Conto do meu tratamento e alerto sobre os sinais e sintomas da doença.

De 2015 até aqui, minha trajetória teve altos e baixos. Quando fui diagnosticada, fiz um ano de químio e uma pausa de dois anos. Em 2018, o câncer se espalhou para a bexiga e o baço, fiz mais uma cirurgia para retirada do baço, parte da bexiga e do fígado, e voltei com a químio.

Nesse mesmo ano, fiz o exame genético e descobri que que sou portadora da mutação no gene BRCA1, o mesmo da atriz Angelina Jolie. O que aumenta o risco de eu desenvolver outros tipos de cânceres, como o de mama e de pâncreas.

Em 2021, o câncer de ovário se espalhou para a vesícula. Nesse último protocolo de quimioterapia, estava bastante debilitada e cheguei a ouvir de uma médica que se eu parasse o tratamento, não duraria mais do que quatro meses.

Nunca aceitei essa colocação de prazo de validade ou de sentença de morte em relação à doença. Escolhi ser protagonista do meu tratamento, ser uma paciente participativa e não deixar tudo na mão dos médicos, mas trabalhar lado a lado, principalmente no que se refere à minha qualidade de vida, que depende de mim e das minhas escolhas.

É por isso que sempre busquei um equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Pratico atividades físicas, faço caminhada e musculação, sou vaidosa, cuido da minha autoestima, da saúde mental, medito, faço terapia, busco o autoconhecimento e tenho uma alimentação saudável.

Nesse processo passei a desenvolver ainda mais a minha espiritualidade, a enxergar a finitude com outra visão, a olhar para os meus três filhos e ver que não tenho todo o tempo que imaginava que tinha, mas que tenho a oportunidade de usar esse tempo de uma forma que valha a pena, faça sentido e a diferença na vida do outro.

Foi a partir dessa percepção que me tornei voluntária em 2017 no Instituto Oncoguia, onde visito mulheres com câncer em hospitais, participo de encontros, acolho, converso, levo perucas e lenços. Por causa da pandemia, ainda não voltamos a fazer esse atendimento nos hospitais, mas sigo dando apoio para pacientes e familiares online e participando de campanhas de conscientização sobre o câncer de ovário.

Acredito que o câncer ressignificou a minha vida porque se não fosse pelo meu diagnóstico, certamente não me dedicaria ao trabalho voluntário e continuaria no piloto automático da vida corrida.

A cada mulher que consigo ajudar de alguma maneira, sinto como se elas me ajudassem ainda mais. É como se eu voltasse em 2015, quando fui diagnosticada, e visse alguém pegando na minha mão e dizendo: 'Você não está sozinha, vai ficar tudo bem'.

Também me tornei movimentadora do Congresso Todos Juntos Contra o Câncer, meu papel é multiplicar informação de qualidade. Ao fortalecer a causa do câncer, os direitos dos pacientes e a importância da mobilização social tornamos o cenário oncológico mais justo e digno para todos.

Acredito que informação é poder, e quando se trata do câncer de ovário, informação salva vidas, já que a falta de rastreamento da doença, falta de campanhas e de conscientização dificultam o diagnóstico.

Apesar de conviver com câncer metastático há sete anos, sinto que tenho muita saúde dentro de mim. Sei da gravidade e da complexidade da doença e das limitações do meu corpo, só que não foco nisso, mas em mim, na minha família, nos meus projetos, nos meus amigos e no meu voluntariado.

Saber que não vou ser curada não é relevante para mim, não preciso ficar curada para me cuidar, ser feliz, me sentir realizada e priorizar o que é importante. Não tenho medo da morte, porque não se trata de quanto tempo ainda tenho, mas se trata da qualidade e do significado com que vou viver o tempo que ainda tenho."

Conheça os sinais de alerta do câncer de ovário

1) O que é câncer de ovário?
O tumor de ovário é a segunda neoplasia ginecológica mais prevalente entre as brasileiras, ficando atrás apenas do câncer do colo de útero. Na fase inicial, o tumor de ovário não causa sintomas específicos, o que dificulta o diagnóstico precoce.

O tumor de ovário é o mais letal dos cânceres ginecológicos. Segundo dados do Inca (Instituto Nacional do Câncer), são estimados 6.650 novos casos do câncer de ovário no Brasil. Em 2020, foram registradas aproximadamente 4.000 mortes no país.

2) Por que o câncer de ovário é considerado silencioso?

Porque não tem um exame específico de rastreamento como os outros cânceres ginecológicos. Outra questão é que muitas mulheres desconhecem o histórico médico de seus familiares, o que é essencial para prevenção desse tipo de tumor, uma vez que famílias que são portadoras de mutações em genes relacionados ao câncer de ovário, por exemplo, os genes BRCA 1 e 2, têm um risco alto de desenvolver a doença.

3) Quais são os sintomas?

Na maioria das vezes, os sintomas aparecem em fases em que a doença já está em estágio mais avançado. Alguns sinais podem servir de alerta como fadiga, aumento do volume abdominal, má digestão persistente, dores pélvicas ou lombar constantes não restritas ao período pré-menstrual, flatulência, sangramento vaginal anormal, alterações urinárias ou intestinais, perda de peso acentuada, anormalidades na vulva ou na vagina.

Como os sintomas são vagos e inespecíficos, eles podem ser confundidos com outros problemas de saúde, como gastrite, infecções urinárias, doenças intestinais e até sintomas de outros tipos de tumores.

4) Quais os principais sinais de alerta e quando a mulher deve procurar ajuda médica?

Entre os sinais de alerta estão dor abdominal ou pélvica frequente; a paciente se sentir enjoada ou não conseguir comer tanto quanto costumava; sempre se sentir inchada e com intestino preso; fazer muito xixi; apresentar menstruação irregular; sentir dor durante a relação sexual e ter muita azia e refluxo. É fundamental observar sintomas persistentes que não eram observados anteriormente.

O mais importante é estar alerta ao seu corpo, qualquer anormalidade deve ser relatada a um médico de confiança para que isso seja investigado e solucionado rapidamente. Quanto antes o tratamento correto for iniciado, melhores as chances de sucesso.

Fonte: Daniela de Freitas, médica oncologista do Hospital Sírio-Libanês (SP)

Fonte: Uol 






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