ASCO 2018 - Cientistas apresentam avanços no tratamento de diversos tipos de câncer

No último dia 5 de junho foi encerrada a Reunião Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), o maior congresso científico da área no mundo. O Instituto Oncoguia traz informações de alguns dos avanços da área apresentados ao longo do evento, que reuniu mais de 32 mil profissionais da saúde de todos os continentes em Chicago, nos Estados Unidos, em torno das mais recentes descobertas científicas em tratamento e cuidado com o paciente.

O diretor científico do Oncoguia, Rafael Kaliks, participou da programação e destaca as inovações apresentadas em tratamento de câncer de pâncreas, próstata, pulmão e mama. "Ao longo de cinco dias de programação foram apresentadas as principais novidades científicas em praticamente todos os tipos de câncer, para que a gente possa melhorar progressivamente os tratamentos oferecidos aos nossos pacientes, inclusive no Brasil, apesar de todas as barreiras para o acesso”, diz Kaliks. Para o especialista, "é fundamental que o paciente discuta com o seu médico, pergunte se existe alguma novidade recente apresentada em congressos científicos ou estudos clínicos dos quais possa participar, porque em determinados casos essa é a melhor alternativa para se ter acesso a essas novidades”.



A vida após o câncer de pâncreas


O câncer de pâncreas está entre os tipos de tumores mais difíceis de tratar, mesmo quando a doença é detectada precocemente ou o tumor pode ser removido cirurgicamente, chamado de ressecável. As chances de que a doença volte a se desenvolver são altas. No entanto, um novo estudo apresentado na ASCO 2018 mostrou que mudanças no tratamento padrão do câncer de pâncreas ressecável podem ajudar a prolongar a vida dos pacientes.

O estudo, que envolveu pesquisadores da França e do Canadá, descobriu que, após a cirurgia, pessoas com o tipo mais comum de câncer de pâncreas, responsável por 90% de todos os casos, o adenocarcinoma ductal pancreático não metastático (PDAC), que receberam uma nova abordagem quimioterápica viveram mais e ficaram mais livres do câncer do que aquelas que foram submetidas à quimioterapia padrão atual.

A quimioterapia após a cirurgia é chamada de adjuvante. Para casos de PDAC, a quimioterapia adjuvante padrão é com a droga gemcitabina (Gemzar). A nova quimioterapia utilizada no estudo é denominada mFolfirinox e inclui quatro drogas: oxaliplatina (Eloxatin), leucovorin (Wellcovorin), irinotecan (Camptosar) e 5-fluorouracil (Adrucil). Uma combinação semelhante já é usada como tratamento inicial para o câncer de pâncreas metastático.

Cada um dos 493 participantes do estudo foi submetido a cirurgia para remover totalmente o tumor ou quase todo. De três a 12 semanas após a cirurgia, eles receberam mFolfirinox ou gemcitabina por seis meses. A média de sobrevida global foi de cerca de 54 meses com a nova quimioterapia e 35 meses com a padrão. As pessoas que tomaram mFolfirinox também ficaram livres de câncer cerca de 9 meses mais do que as que usaram gemcitabina – foram quase 22 meses com a nova quimioterapia em comparação com quase 13 meses com o tratamento convencional.

No geral, os pacientes que receberam mFolfirinox apresentaram sintomas mais graves, mas controláveis – como diarreia, náusea, vômito e fadiga. Os efeitos colaterais da gemcitabina incluem dor de cabeça, sintomas semelhantes aos da gripe, inchaço e baixa contagem de células brancas do sangue. Ambos os tratamentos podem causar baixos níveis de glóbulos brancos e febre. Apesar das reações adversas, os resultados foram comemorados pela comunidade médica internacional. "Pela primeira vez um estudo apresenta um ganho imenso da quimioterapia adjuvante FOLFIRINOX sobre a quimioterapia padrão com gemcitabina em termos de redução do risco de recidiva da doença, mostrando que podemos ajudar pacientes com câncer de pâncreas a viverem por muito mais tempo. Isso deve se tornar um novo padrão para o tratamento da doença”, acredita Kaliks.

Câncer de próstata descomplicado

Estima-se que dentro dos dez primeiros anos desde o tratamento inicial do câncer de próstata, até 40% dos pacientes que realizaram prostatectomia radical e 50% daqueles submetidos a radioterapia irão desenvolver recorrência da doença. Embora o monitoramento dos níveis de PSA, os antígenos específicos da próstata que indicam se há câncer, informe sobre as chances de recorrência, ela não diz exatamente onde a doença pode voltar – um verdadeiro dilema médico.

Para melhorar esse monitoramento, pesquisadores de instituições de Dublin, na Irlanda, e do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, nos Estados Unidos, incorporaram à medição dos níveis de PSA o uso de sondas e técnicas de imagem, como tomografia computadorizada, ressonância magnética e tomografias ósseas. Foi realizada uma revisão de todos os pacientes encaminhados pela instituição norte-americana, que passaram por exames de PET-CT de PSMA - proteína "parente” do PSA encontrado no sangue, mas localizada na membrana das células cancerosas prostáticas.

O exame de imagem conhecido como PET-CT é a fusão de dois exames conhecidos: um PET scan (tomografia por emissão de pósitrons) com uma tomografia computadorizada (CT, em inglês). Ele é realizado com a injeção de uma substância chamada radiofármaco, erroneamente conhecido por contraste. Essa molécula é absorvida por células cancerosas, concentrando-se mais em áreas tumorais. Assim, após a injeção, é feito um rastreamento de todo o corpo do paciente com o intuito de identificar a localização de um possível câncer.

Os resultados levaram a uma mudança no manejo para 96% dos pacientes. Todos estão vivos e já com sobrevida livre de progressão de 11 meses.

Kaliks conta que a técnica está disponível no Brasil em diversos centros, mas o estudo traz novas evidências de sua eficácia e aponta para um uso mais ampliado. "Ela consegue detectar a localização de eventuais metástases do câncer de próstata, poupando o paciente de tratamentos inadequados. Isso porque quando o PSA começa a subir, o médico se pergunta, por exemplo, se a recidiva está localizada na região da próstata, nos ossos, em linfonodos... O PET-CT de PSMA consegue discriminar onde está a doença e, quando mostra uma alteração em alguma área do corpo, uma biopsia localizada pode comprovar com uma imensa probabilidade que aquele é o local da recidiva, permitindo ao médico decidir se irradia localmente o tumor”, explica.

Imunoterapia para mais pacientes com câncer de pulmão

Para câncer de pulmão metastático, a imunoterapia, que até hoje é usada como primeira linha de tratamento apenas para 25% dos pacientes, pode ser útil a mais pessoas – é o que demonstrou um estudo liderado pelo Sylvester Comprehensive Cancer Center, da Universidade de Miami, nos Estados Unidos. De acordo com os resultados apresentados na ASCO, provavelmente será possível estender os benefícios da imunoterapia a pelo menos 75% dos pacientes com metástases do câncer de pulmão.

O estudo demonstrou que o agente imunoterapêutico pembrolizumab (Keytruda) é mais eficaz que a quimioterapia como tratamento de primeira linha para a maioria dos pacientes com um tipo comum de câncer de pulmão, independentemente da expressão de PD-L1, a proteína frequentemente usada para prever resposta ao medicamento e a outras terapêuticas similares. Os pesquisadores distribuíram aleatoriamente 1.274 pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas localmente avançado ou metastático para receber pembrolizumab ou quimioterapia. O estudo demonstrou que os pacientes tratados com imunoterapia viveram uma média de quatro a oito meses a mais do que aqueles tratados com quimioterapia. Além disso, efeitos colaterais graves ocorreram em apenas 18% dos pacientes que receberam pembrolizumab em comparação com 41% dos demais.

Os resultados expandem a população de pacientes que podem se beneficiar da imunoterapia, oferecendo uma nova opção de tratamento com melhor eficácia e menos efeitos colaterais do que a quimioterapia padrão. O estudo mostra que o pembrolizumab fornece mais benefícios do que a quimioterapia para 2/3 de todas as pessoas com o tipo mais comum de câncer de pulmão. 

Câncer de mama

Também foram apresentados resultados do estudo conhecido como Taylor X, realizado por pesquisadores de instituições do Canadá e dos Estados Unidos. Entre os achados está um teste que pode ser feito no material da cirurgia de mulheres com câncer de mama cujo tumor possui receptores hormonais. O exame pode dizer se há baixo risco de recidiva, evitando-se a administração de quimioterapia. O estudo também mostrou que mesmo em grupos de mulheres de risco intermediário a quimioterapia pode não ser necessária.

"Trata-se de uma boa notícia porque a gente consegue poupar quase 70% das nossas pacientes de uma quimioterapia que, antes, era dada para todas as mulheres por precaução. Ainda é um exame muito caro, mas com a publicação do estudo se caminha para que ele seja mais popularizado”, conta Kaliks.

Para o diretor científico do Oncoguia, as novidades apresentadas levam a novas esperanças, mas o acesso a elas ainda é dificultado. "A imunoterapia, por exemplo, ainda não foi incorporado pelo SUS, e é preciso uma pressão social grande para que isso aconteça, porque o acesso a essa inovação pode fazer toda a diferença para que os pacientes vivam por muito mais tempo e com mais qualidade. A ciência avança muito rápido e cabe não só aos médicos tomar conhecimento desses avanços, mas ao paciente e à sociedade em geral, porque essas mudanças com base em ciência bem feita leva à cura e a uma melhor qualidade de vida”, defende.
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