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Vaporizador de cigarro eletrônico cria tumores de pulmão e afeta bexiga em cobaias

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 09/10/2019 - Data de atualização: 09/10/2019


Homem usa cigarro eletrônico nos EUA Foto: EVA HAMBACH / AFP

Um experimento da Universidade de Nova York (NYU) expôs camundongos ao preparado vaporizado idêntico ao usado em cigarros eletrônicos e fez a incidência de tumores de pulmão e hiperplasia de bexiga aumentar nos animais. O novo experimento é o primeiro a estabelecer, ainda em cobaias, uma ligação direta entre o fumo eletrônico e o câncer. Outros estudos já haviam mostrado que esses produtos são capazes de danificar DNA nas células.

Para simular o hábito tabagista humano em roedores, os pesquisadores os submeteram ao preparado aerossol dos cigarros eletrônicos colocando-os dentro de câmaras de inalação. A principal diferença entre o fumo convencional e o eletrônico é que o primeiro depende de queima para gerar a fumaça a ser consumida. O segundo entrega a nicotina, princípio ativo do tabaco, usando aerossol de isopropileno e glicerina, que não é tóxico em baixas concentrações, como “veículo” para chegar às vias aéreas.

Câncer de pulmão
Após um ano em sessões regulares de tabagismo simulado (20 horas semanais), um grupo de nove dos 40 camundongos submetidos à substância desenvolveu câncer de pulmão, e 23 tinham hiperplasia da bexiga, condição que normalmente precede o câncer nesse órgão. Para efeito de comparação, outros 36 roedores foram criados durante o mesmo período respirando apenas ar puro ou ar com o “veículo” de isopropileno, e apenas um desenvolveu câncer de pulmão, outro hiperplasia de bexiga.

Segundo o biólogo Moon-shong Tang, que liderou o experimento, o que o motivou a fazê-lo foi a estratégia de marketing da indústria tabagista, que busca convencer o público de que cigarros eletrônicos são mais seguros que os convencionais. Estudos que medem em fumantes a concentração de nitrosaminas (moléculas cancerígenas derivadas da nicotina) em fluidos corporais de fato corroboram o discurso de que o fumo eletrônico “é 95% mais seguro que o convencional”. A nicotina em si não é capaz de danificar DNA, e precisa ser quimicamente alterada de alguma forma para tal, mas Tang diz que isso apenas não basta para atestar segurança.

— Num estudo epidemiológico publicado há mais de dois anos, um grupo inglês encontrou pouca nitrosamina no sangue, na urina e na saliva de pessoas que consumiam cigarro eletrônico, e foi daí que saiu o argumento de que esse produto é 95% mais seguro que os cigarros convencionais — afirma Tang. — Mas eu acho que há uma falha nessa afirmação, porque a nicotina também sofre reações químicas dentro das células, formando nitrosaminas e outros agentes que danificam o DNA. A nitrosamina está a apenas um passo da nicotina. Uma única reação química é capaz de formá-la.

A fabricante de cigarros eletrônicos Phillip Morris, procurada pelo GLOBO, emitiu comunicado afirmando não acreditar que a metodologia usada por Tang se aplique ao seu cigarro eletrônico. A empresa informa ainda que "o produto de tabaco aquecido da Phillip Morris, o IQOS, é fundamentalmente diferente dos cigarros eletrônicos por ser composto de tabaco e não de essências e líquidos" e que "nele, o tabaco é aquecido a temperatura controlada muito baixa, se comparada à necessária para a combustão, através de um aquecedor blindado que não permite manipulações ou usos com líquidos. Com isso, ele evita a formação de cerca de 90% a 95% dos compostos tóxicos quando comparado ao cigarro convencional".

Hipótese comprovada
A hipótese de Tang está agora demonstrada em estudos no nível celular e em experimento in vivo em cobaias. O resultado do último foi descrito em estudo na edição desta quarta-feira da revista científica PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos EUA. Para estabelecer uma ligação direta do cigarro eletrônico com o câncer em humanos, falta ainda um estudo epidemiológico que acompanhe pessoas consumidoras de e-cigarretes, mas Tang alerta que essa resposta pode demorar.

— Um fumante persistente de tabaco convencional leva 20 anos ou mais para desenvolver um câncer de pulmão. É um processo lento, porque a natureza do câncer é assim. — explica. — No caso dos cigarros eletrônicos, porém, faz apenas oito anos que eles se tornaram realmente populares, então ainda falta uma década para que vejamos isso em populações humanas.

O efeito carcinogênico em roedores é um sinal de alerta muito forte de que o mesmo deve ocorrer em humanos, ele frisa. Na redação do estudo da PNAS, porém, Tang diz ter sido cauteloso, porque as alegações desses trabalhos costumam ser disputadas frase por frase por advogados da indústria tabagista.

Ele e seus coautores escrevem: “Enquanto já está bem estabelecido que a fumaça de tabaco apresenta um grande risco para a saúde humana, ainda não se sabe se a fumaça de cigarro eletrônico representa alguma ameaça para humanos, e isso merece investigação cuidadosa”.

O pesquisador afirma, porém, que está pessoalmente convencido sobre o efeito carcinogênico dos cigarros eletrônicos.

— Quero passar essa mensagem especialmente às pessoas jovens: e-cigarettes são nocivos, são carcinogênicos — diz.

Fonte: O Globo

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