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Que vida boa, hein?

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 31/01/2018 - Data de atualização: 31/01/2018


Você que é paciente oncológico, especialmente metastático, ou que está afastado do trabalho há algum tempo mas tenta ter uma vida "normal” dentro das possibilidades, certamente já ouviu alguma dessas frases carregadas de ironia:

"Que vida boa hein?! Eita vidão!!! Isso sim é vida!”

Não consigo nem contar quantas vezes eu já ouvi isso... declaradamente, ou através de caras, bocas e olhinhos virados. Percebi que a maioria das pessoas tem um certo conflito interno sobre o conceito de solidariedade. Em resumo funciona assim: "Ela tá pior que eu – merece minha solidariedade. Ela tá melhor do que eu – não merece”.

E essa conclusão se baseia em um único critério: a aparência!

Ninguém tem tempo, vontade ou interesse em aprofundar essa análise vazia sobre a vida do outro estar melhor ou não que a sua.



Então hoje vim contar para vocês, pessoas solidárias baseadas em aparência, aquilo que vocês não nos perguntam. Vou usar o MEU caso... mas, acredito que esteja falando em nome de muitos pacientes oncológicos.

Eu tenho 35 anos e uma doença incurável. Não uma doença qualquer, tenho aquela que muitos nem ousam falar o nome. No meu prontuário diz que meu tratamento é paliativo. Descobri há 6 anos quando queria ficar grávida e construir minha família de margarina. Não pude ficar. Não posso mais. Nunca poderei gerar uma criança. Aos 28 anos tive que tirar um seio que me deixou com uma cicatriz enorme, perdi cabelos, ganhei peso, ganhei uma carteirinha de sócia de pronto socorro e laboratório. Perdi o marido, alguns amigos e a possibilidade de morar fora do país como eu sempre havia sonhado. Carreira? Vida financeira? O que é isso? Que empresa quer investir numa profissional "bomba relógio”? Adoraria estar estressada com a segunda-feira, a correria, a carga horária, o chefe, mas, infelizmente, minha preocupação financeira do momento é se o INSS terá um reajuste proporcional ao plano de saúde pra seguir meu tratamento com um mínimo de dignidade.

Meu vasto currículo agora não tem em destaque todas as minhas incontáveis habilidades no jornalismo. Tem 52 quimioterapias, 28 radioterapias, 45 terapias alvo, 3 anos e meio de hormonioterapia e muitos, muitos, mas muitos exames e  idas ao hospital. Não posso fazer planos a longo prazo. Tudo depende do marcador tumoral mensal, da ressonância bimestral, do pet ct trimestral, dos leucócitos, se a doença está em progressão ou remissão, se estarei fazendo a quimio pesada ou não e do quanto meu organismo estará suportando as medicações. Também é difícil me relacionar. Eu não sei se conto, se não conto e em que momento o cara vai sair correndo quando perceber que não me encaixo na planilha do futuro perfeito do Facebook (carreiras incríveis, ter filhos, viajar nas férias, adquirir muitos bens e morrer velhinhos). Acredite, não se fazem mais homens como antigamente hahahahahaha Amor poético virou brega...  (Se você é brega, me liga <3)

Autoestima? Vixe! Haja terapia. Não posso fazer quase nenhum procedimento estético, nem usar a receitinha antirruga. Fazer a unha pode me trazer uma infecção e me matar. Malhar quase não rola também devido o risco da metástase óssea fraturar. O cabelo? Tá sempre ali entre o indomável e o pixaim e quando eu penso que ele vai crescer, tenho que voltar pra quimio e pronto... careca de novo. Bancos e seguradoras não me aceitam. Aos 35 anos eu tenho que pensar em testamento e em escalar alguém para decidir por mim quando eu não for mais capaz. Tenho que falar de morte com a facilidade com que pronuncio "abóbora”. Tenho que ver amigas de luta partirem por causa dessa doença e fico tentando driblar o pensamento sobre "será que serei a próxima”. Tenho que tentar fazer minha mãe entender que aquele ciclo da vida em que os filhos enterram os pais talvez não role no nosso caso, mas que tudo bem, ela não precisa sofrer agora, nem depois, estaremos sempre juntas.

Eeeeeita vidinha fácil essa minha!


 
Mas, apesar de tudo isso, eu redescobri uma vida repleta de significados. Descobri que cada momento importa, cada pessoa importa, cada palavra importa.
 
SENTIR é o que faço de melhor... e eu sinto muito e intensamente. Sinto prazer em comer em um restaurante estrela Michelin e no PF do Zé que faz um ovo com gema mole imbatível. Sinto alegria em chegar em casa e ter um presente da minha amiga me dizendo o quanto sou importante pra ela. Sinto emoção cada vez que minha sobrinha fala "oi dinda!”. Sinto felicidade quando estou bem e posso viajar, conhecer novas culturas, realizar cada #bucketlist e por alguns dias não ser "a menina com câncer”!!! Sinto esperança, quando abro um exame e consigo ver que algo está indo bem, mesmo que a doença esteja ativa. Sinto amor, desses bem viscerais, com cada célula do meu corpo... amo minha família, meus amigos e até quem não conheço mas sei que torce por mim. Sinto vida, cada vez que eu acordo, mesmo que eu saiba que meu dia será repleto de agulhadas e vomitadas. Sinto gratidão, não essa das # das blogueiras... é uma gratidão que vem lá do fundo da alma por simplesmente ter a oportunidade de mais um dia, mais um abraço, mais um olho no olho, mais uma risada, mais uma dança, mais um brinde, mais um áudio gigante no WhatsApp...

É... pensando bem, você tem razão.
A minha vida é muito boa mesmo ;)

Solidariedade não é uma palavra bonita só pra você postar no Facebook se referindo a si mesmo.

Caso nos veja mal, seja solidário com nossa dor. Quando estivermos bem, fique feliz por nós... a gente passa por coisas que você não faz a menor ideia e nem sempre temos a oportunidade de curtir alguns prazeres que você terá todo tempo e até saúde do mundo para realizar. 

Bjs
AnaMi
@paliativas

As opiniões contidas nos artigos assinados pelos nossos colunistas refletem unicamente a opinião do autor, não caracterizando endosso, recomendação ou favorecimento por parte do Instituto Oncoguia.

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