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Novos estudos mostram eficácia da imunoterapia em combos e contra melanomas avançados

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 09/12/2020 - Data de atualização: 09/12/2020


Até assistir na televisão a uma reportagem sobre os ganhadores do Nobel de Medicina, em 2018, o administrador de empresas Carlos Henrique Barbosa Felippe, 54, não havia se dado conta de que, sem o tratamento de ponta pelo qual passou, suas chances de cura não ultrapassariam os 5%.

Com câncer melanoma avançado diagnosticado em julho de 2017, Carlos já tinha dez metástases ósseas quando iniciou a imunoterapia, tratamento baseado nas descobertas dos dois imunologistas que receberam o prêmio, James P. Allison (EUA) e Tasuku Honjo (Japão).

Depois de seis meses tomando um combinado de dois medicamentos imunoterápicos (nivolumabe e pembrolizumabe), Carlos voltou a andar de bicicleta e, em mais dois meses, já recomeçava o treino completo de triathlon, modalidade que inclui, além do ciclismo, natação e corrida.

O histórico é parecido com o do empresário Carlo Lovatelli, 75, que teve um câncer de pele extraído cirurgicamente há cerca de cinco anos. “Parecia resolvido, mas o sem-vergonha progrediu internamente”, conta. Em junho do ano passado, foram descobertos dois nódulos no cérebro. Um foi removido cirurgicamente e o outro tratado com uma combinação de imunoterápicos, em quatro infusões intravenosas a cada 21 dias.

“Na segunda aplicação, o tumor já tinha sido reduzido para 10% do tamanho original. Na quarta, estava zerado”, lembra o empresário.

A imunoterapia mudou a história do tratamento do melanoma. “Hoje, o potencial de cura se aproxima dos 50%. Isso significa que quase metade dos pacientes permanece viva após cinco anos, com um tratamento que tem menos efeitos colaterais do que a quimioterapia”, afirma Gustavo Schvartsman, oncologista responsável pelo programa de terapia celular em tumores jovens do hospital Albert Einstein, de São Paulo.

“Temos aprovadas duas classes de drogas com dois alvos específicos, mas já estão sendo pesquisadas dezenas de novas drogas”, diz Rodrigo Munhoz, oncologista especializado em tumores de pele e coordenador do programa de residência do hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

Os alvos são as mutações específicas de cada câncer e as proteínas que “enganam” o sistema imunológico e freiam sua ação de combate às células cancerígenas. O imunoterápico desbloqueia esses freios e faz com que o próprio sistema de defesa do corpo combata o tumor. Em boa parte dos casos, o resultado é redução do tamanho dos tumores, inibição de metástases e controle e eliminação da doença.

No último encontro da Sociedade de Clínica Oncológica Americana (Asco, na sigla em inglês), o mais importante congresso médico científico da área, estudos de longo prazo apresentados comprovaram que a imunoterapia é um tratamento de cura mesmo para o melanoma avançado, relata Antônio Buzaid, diretor médico do centro de oncologia da Beneficência Portuguesa, de São Paulo.

“Não esperava um resultado tão importante”, diz Veridiana Pires de Camargo, oncologista do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira).

Segundo a oncologista, estudos revelaram a superioridade dos combos sobre os tratamentos que utilizam apenas um imunoterápico. Também está sendo testada a possibilidade de diminuir as dosagens usadas no tratamento, para reduzir efeitos colaterais. Os mais comuns são coceira, diarreia e inflamações de órgãos, como hepatites ou pneumonites.

Isolada ou combinada, a imunoterapia também diminui o número ou o tamanho das cirurgias. “Hoje não fazemos amputações, como era comum no passado recente”, afirma João Pedreira Duprat Neto, cirurgião oncológico responsável pelo Centro de Referência em Tumores Cutâneos do hospital A. C. Camargo Cancer Center.

Outra novidade, validada em pesquisas apresentadas há menos de um mês pela Academia Americana de Pesquisa do Câncer, é o uso preventivo dos imunoterápicos. O tratamento neoadjuvante, como é chamado, é feito antes da extração cirúrgica de tumores em pacientes sem metástases.

Schvartsman cita outro tratamento já testado há algum tempo mas que vem ganhando novo destaque, o TIL (sigla em inglês para linfócitos infiltrantes de tumor). Neste caso, os linfócitos (células de defesa do corpo) são colhidos no próprio tumor durante a cirurgia, passam por procedimentos laboratoriais para aumentar em quantidade e qualidade e são re-infundidos no paciente, para estimular o sistema imune. “Ainda é um tratamento bem caro e demorado, usado quando as outras opções não dão resultados”, diz Schvartsman.

Na área de diagnóstico, a novidade é a biópsia líquida, que investiga amostras de sangue. “Esse exame pode identificar as mutações mais comuns para o melanoma, como nos genes Braf, NRAS e Kit”, declara Gustavo Campana, diretor-médico da Dasa, dona do Laboratório Delboni Auriemo. Mutações nos genes citados estão relacionadas ao crescimento e à proliferação das células cancerígenas.

Os testes identificam fragmentos de tumor no sangue periférico, o DNA circulante. “Entre as vantagens, esses testes são menos invasivos, mais baratos e possibilitam uma amostra do conjunto de moléculas liberadas no sangue, enquanto a biópsia convencional usa uma única amostra. “Mas, como há menor quantidade de DNA circulante no sangue do que no tecido do tumor, teoricamente a chance de falso negativo é maior”, declara Aloísio Silva, patologista do grupo Fleury.

Os tratamentos de Carlo Lovatelli e Carlos Felippe foram pagos por seus convênios médicos. Na época, as drogas usadas já integravam o rol de procedimentos e eventos de saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Segundo Duprat, do A. C. Camargo, o custo do tratamento podia chegar a R$ 500 mil.

A rede pública de saúde só incorporou os imunoterápicos nivolumabe e pembrolizumabe em 5 de agosto último. Conforme a decisão publicada, eles estarão disponíveis no SUS para tratamento de melanomas em estágio avançado não-cirúrgico e metastático. A estimativa do país para 2020 são de 8.500 casos de melanoma, com cerca de 2.000 mortes.

Embora tenham dividido o Nobel de Medicina de 2018, os imunologistas James P. Allison e Tasuku Honjo desenvolveram separadamente os estudos que deram origem à imunoterapia.

Em 1994, Allison, do MD Anderson (Universidade do Texas), realizou em ratos os primeiros testes com a proteína CTLA-4. Produzida por tumores, essa proteína bloqueia o linfócito T, responsável por reconhecer e combater as células que não são normais no organismo, como as tumorais. Os testes em humanos começaram em 2010. Essa linha de pesquisa resultou no anticorpo ipilimumabe (da Bristol-Myers Squibb).

Honjo e sua equipe na Universidade de Kyoto identificaram em 1992 outra proteína, a PD-1. Entre as drogas originadas a partir dessa descoberta estão o nivolumabe (também da Bristol-Myrers Squibb) e o pembrolizumabe (da Merck Sharp & Dohme).

Fonte: Folha de S.Paulo

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