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Kamilla Bussinger: Quando o diagnóstico de câncer se transforma em conexão com a vida

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 30/05/2018 - Data de atualização: 30/05/2018


"Sei que tem gente que sofre muito do câncer, mas foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida porque deu esse start de mudar tudo". É assim que Kamilla Bussinger, de 24 anos, define o período em que conviveu com a doença que assusta só pelo nome, mas foi fundamental para o que chama de "reconexão". Kamilla nasceu no Rio de Janeiro, mas morou toda a infância e adolescência em Magé, na Baixada Fluminense, uma cidade de região metropolitana com ares de interior. Por lá, tudo é tabu. Então aos 17 anos, ela tomou o rumo que sabia já estar traçado: sair da cidade pequena e ganhar o mundo de vez.

Prestou vestibular, entrou na universidade, viajou, trabalhou em vários lugares, recebeu bons salários e aos 21 anos passou pelo momento mais conturbado da vida, ainda que estivesse no início dela. Hoje, entende a doença como uma espécie de sinalização para uma vida que foi ocultada: estuda psicologia, abriu seu próprio negócio e encontrou no contato com a natureza uma cura interna. No futuro pretende trabalhar em uma ONG "para ajudar, de fato, alguém".

Eu entendi que ninguém fica doente, com uma doença grave, à toa.

Formada em Relações Internacionais, ela viu que não tinha mais tempo a perder, profissional e pessoalmente, quando ouviu uma frase determinante, atribuída a Carl Jung. "Ele fala que a doença vem pra ressignificar aspectos da nossa vida. Então eu entendi que ninguém fica doente, com uma doença grave, à toa. São aspectos do inconsciente gritando para você parar e reavaliar, e eu fui fazer isso", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Decidiu pela pós-graduação em psicologia analítica, um amor antigo. Psicologia, aliás, foi a carreira que pensou em seguir antes de conhecer Relações Internacionais - que ela carinhosamente brinca ser a "psicologia dos Estados" e "querer ver e entender o mundo, e saber porque ele é do jeito que ele é". Mas o que ela conseguiu mesmo foi ampliar seus horizontes.

De sorriso largo, voz baixa e hospitalidade comum a quem nasceu no seio de uma família de mulheres, Kamilla conta a sua história sem medos, rejeita o sentimento de pena e ressalta a importância de manter os pés no chão. "Tudo aconteceu muito rápido. Foi um momento em que eu precisei acreditar muito na vida, porque pra mim isso tem um motivo de ser. Eu precisava estar muito conectada comigo, porque minha família não tinha estrutura emocional para lidar com tanta coisa ao mesmo tempo".

Foi um momento em que eu precisei acreditar muito na vida, porque pra mim isso tem um motivo de ser.

Em 2015, dois meses antes de descobrir que o nódulo na tireóide era maligno, o avô materno dela que sofreu durante cinco anos com um câncer em metástase, morreu. A falta de estrutura emocional para a família naquele momento nasceu do desgaste com idas aos hospitais, gritos de dor e sentimento de impotência diante de uma doença silenciosa. Foi a morte do avô, inclusive, que a fez questionar se realmente o nódulo era inofensivo como um badalado médico de Niterói tinha diagnosticado em 2013.

"Eu não tive sintoma nenhum: eu tinha o mesmo peso há anos, meu cabelo era imenso, minhas unhas eram grandes, minha menstruação era regrada e tinha uma vida normal", conta. Quando descobriu a doença, depois de ver a saga do avô, a primeira pergunta que fez para a médica foi: 'eu vou morrer?'. Ela disse que não. A profissional também garantiu que Kamilla não ia ficar careca, então ela decidiu: "Então tá bom. Vamos seguir, o resto a gente dá um jeito."

E que jeito. Se por dentro foi silenciosa, por fora a doença fez barulho e mexeu com as suas relações. Na infância, Kamilla sofreu um abuso mas culpava exclusivamente a mãe, Joana D'Arc, que não estava por perto. Com a doença, decidiu arrumar a casa. A relação superficial, apesar de boa, resultou em pouco envolvimento de Joana no começo do tratamento. Filha única, ela tomou coragem e confrontou a mãe sobre ações do presente, mas conseguiu resolver os problemas do passado. Depois de muito choro e "lavagem de roupa suja", as duas estavam em paz. "Foi o momento da gente se reaproximar profundamente. A gente estava num nível de relacionamento superficial porque eu achava que não podia contar com ela. Mas somos só nós duas, sempre."

Comecei a fazer esse movimento terapêutico de olhar de onde eu vim, da minha criação matriarcal.

Além do nome da mãe, Kamilla tem outras conexões com mulheres fortes: a bisavó divorciada no início do século 20 e diagnosticada como "louca", as tias de religiões pagãs e principalmente a avó, que morreu três dias depois da cirurgia de retirada do nódulo de Kamilla. Mais uma perda, mais uma chance de revisitar o histórico familiar. A firmeza das mulheres ao redor fez com que um lado até então desconhecido despertasse. "Comecei a fazer esse movimento terapêutico de olhar de onde eu vim, da minha criação matriarcal. Então eu pensei que tinha alguma força interna, alguma coisa que eu tinha que tirar disso. Se eu sobrevivi às questões do passado, me convenci que iria sobreviver ao câncer. Aí eu comecei a mexer com plantas."

Eu tinha tudo pra pirar, mas eu me convenci que se eu entrasse em contato com a minha essência, eu iria conseguir florescer.

O contato com plantas começou trágico: a primeira que ganhou, logo morreu. Então ela insistiu até dar certo, e descobriu no movimento de cuidar das plantas e da terra uma tranquilidade necessária. Hoje, ela é dona do Plantae Mini Jardim, onde vende plantas, especialmente suculentas. De acordo com Kamilla, este tipo de planta pode perder todas as folhas, mas renasce ao entrar em contato com a terra. Assim como os cactos, que mesmo secos e com espinhos geram flor. Ela viu brotar da terra aquilo que já flertava há um tempo: renascimento. "Eu tinha tudo pra pirar, mas eu me convenci que se eu entrasse em contato com a minha essência, eu iria conseguir florescer. Então foi quando, de fato, dei essa virada: saí do emprego, comecei o mestrado numa área masculina e meti a cara pra fazer o que eu queria."

Tento mostrar que é uma ideia e não só o produto.

Ela concilia o mestrado em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança Internacional com o Plantae, que nasceu e é mantido na sala de casa, mas não gera uma grande renda. O propósito maior, para ela, nunca foi dinheiro mas sim levar conexão para as pessoas. "Eu tenho todo tipo de cliente: tem cliente que compra pra artigos decorativos, tem quem queira decorar uma casa nova depois de casar e tem os que chegam dizendo que querem aprender a cuidar de uma planta, que querem estar conectados com a natureza."

A cura, muito além do câncer, que Kamilla sentiu ao se reconectar com a sua natureza, e com a "grande Mãe Terra", ela tenta levar aos ávidos por menos cinza. "Às vezes nosso dia a dia faz com que a gente não olhe pra lua, por exemplo. O meu propósito é levar conexão, e eu não sei se fica sempre claro, mas eu tento mostrar que é uma ideia e não só o produto."

Forte como as suculentas, Kamilla mostra que há momentos inevitáveis da vida, que surgem para nos ensinar, por mais que tudo pareça seco e espinhoso. E mesmo que esteja, é possível florescer, como os cactos.

Fonte: HuffPost Brasil

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