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Entrevista: "A maioria dos cânceres pode ser prevenida", dizem cientistas

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 29/11/2021 - Data de atualização: 29/11/2021


Você provavelmente já sabe da importância do combo alimentação, atividade física e controle do estresse para um estilo de vida saudável. Talvez até suspeite ou acredite que tais fatores são cruciais para prevenir o aparecimento de doenças. Muitos, porém, ainda relacionam as causas do câncer apenas a aspectos genéticos ou do acaso, e não comportamentais.

Em Vida Anticâncer: Transforme seu estilo de vida e sua saúde com o Mix de Seis, livro lançado em julho pelo selo Fontanar da Companhia das Letras, o médico Lorenzo Cohen e a professora Alison Jefferies trazem uma extensa revisão de estudos científicos para corroborar a tese de que o estilo de vida é fundamental para a prevenção, o tratamento e a superação da doença. O que os autores chamam de “mix de seis” engloba os principais fatores que compõem o estilo de vida anticâncer: além dos já conhecidos alimentação, exercício físico e controle do estresse, inclui amor e apoio social, descanso e prevenção de toxinas ambientais.

“Desde o momento em que começamos a escrever o livro, 20 anos atrás, as evidências são muito claras de que nossos comportamentos influenciam o risco de desenvolver câncer”, destaca Cohen, que é professor de Prevenção Clínica do Câncer e diretor do programa de Medicina Integrativa do MD Anderson Cancer Center da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. “Mas essa informação não está disponível de forma geral ao público. Encontramos tudo em pedaços, ouvindo que carne vermelha faz mal e que pessoas que não dormem o suficiente têm baixa expectativa de vida. Nada disso está junto em um só lugar.”

Em entrevista a GALILEU, os autores falaram sobre como nossos hábitos e comportamentos são mais importantes do que imaginamos para combater o câncer, o que fazer para melhorá-los e como colocar o “mix de seis” em prática.

Lorenzo: Sou um cientista comportamental. Nos termos da minha especialidade, posso ser chamado de um “psicólogo-médico”. Tenho particular interesse em como os comportamentos influenciam a saúde. Especialmente nas áreas que pontuamos no livro, que chamamos de “mix de seis”. Então, quisemos criar um livro que não apenas apresentasse a evidência com autoridade, de modo que os médicos ficassem confortáveis em recomendá-lo, mas que fosse também um pouco mais prescritivo. Por isso, cada capítulo tem uma parte que foca na ciência. E o que Alison traz é mais no sentido de como você pode fazer as coisas, de fato. Todo mundo sabe que deve comer mais vegetais e menos comida processada, que deve se exercitar diariamente. Mas como você faz isso na prática e de uma maneira sustentável?

Existem muitas doenças diferentes para estudar e se preocupar, e que também estão relacionadas ao comportamento. Por que o câncer?

Lorenzo: Voltando a quando me formei em medicina, minha especialidade foi o campo da psiconeuroimunologia, que para mim é uma grande área dentro do estudo das relações entre fatores psicológicos e nossa biologia. Ainda nos anos 1990, já sabíamos que o sistema imunológico era criticamente importante. Tanto que o motivo primário da perspectiva científica era estudar a relação entre o estresse, a imunidade e o câncer. Naquele ponto, não havia  necessariamente um motivo particular para eu ingressar no campo da oncologia. Mas, desde então, meus pais tiveram múltiplos cânceres e eu, depois que entreguei a versão final do livro em 2018, recebi um diagnóstico de melanoma.

Isso me deu uma outra perspectiva, mas o que me levou ao estudo da oncologia foi realmente o fato de que a psicologia e o comportamento influenciam a doença, o que não era muito conhecido na época. Por exemplo, para as doenças cardiovasculares, nós meio que já sabíamos na década de 1980 que a dieta e os exercícios físicos importavam. E sabíamos que o estresse crônico poderia levar a um segundo ataque cardíaco depois do primeiro. Mas no mundo do câncer, mesmo que nós, do campo da psicologia médica, soubéssemos que havia uma ligação, não havia ainda muita evidência científica disso.

Com tantas doenças para se preocupar, e agora mais ainda com a Covid-19, por que as pessoas deveriam adotar especificamente o estilo de vida anticâncer?

Lorenzo: Chamamos de estilo de vida “anticâncer”, mas significa apenas um estilo de vida saudável. O padrão primordial é que cada uma das seis áreas influencia em todas as doenças não comunicáveis: doença cardiovascular, Alzheimer, diabetes etc. Essas são as doenças primárias; 80% das mortes prematuras são causadas por essas quatro ou cinco condições. E, claro, o câncer e suas múltiplas formas. Se pudéssemos dar apenas um nome, seria essencialmente um estilo de vida “anti-inflamatório”, que faz todos os processos biológicos que nos mantêm saudáveis funcionarem adequadamente.

"O estresse é importante porque, em um nível biológico, pode sabotar outros benefícios que você está conquistando""

Então, pessoas que sofrem com privação de sono, comem muita comida processada ou estão expostas ao ar poluído, só para dar alguns exemplos, têm um maior risco de ter complicações sérias em decorrência da Covid-19. Até escrevemos um pequeno artigo sobre isso, falando que esse estilo de vida diminuiu a chance de contrair o Sars-CoV-2 ou ter complicações, porque o sistema imunológico fica fortalecido. Sabemos que a maioria das pessoas que estão morrendo de Covid-19 apresenta uma dessas condições primárias, como pressão sanguínea alta, sobrepeso, diabetes, doenças cardíacas, entre outras. Então, temos essa única prescrição para ajudar em todas as doenças não comunicáveis.

Alison: E uma das coisas que nós também falamos é que se você pensa em si mesmo e na própria saúde e se sente mal por fora, é um alerta de que o que ocorre em um nível celular também está sofrendo esse impacto. Quando você se sente exausto de manhã, é um sinal de que, internamente, seu corpo não está performando bem, e isso tem um impacto até nas células.

Vocês abordam a proporção dos 90% e 10%, que ajuda a mostrar para as pessoas que tudo bem tomar uma taça de vinho de vez em quando; só não tome toda a garrafa de uma vez. Como pensar nessa proporção pode ser útil?

Alison: Eu pessoalmente acho que ajuda muito pensar nessa proporção: 90% promovendo uma saúde de forma sustentável e 10% sendo neutro ou até mesmo depreciativo. Nossa mensagem não diz o que você não pode fazer, e sim o que você deveria incluir mais. Quanto mais você inclui algo [na dieta], menos das outras coisas você acaba comendo ou bebendo. Então, quando você analisa como foi seu dia, vê que pode comer aquele pedaço de chocolate ou beber uma taça de vinho. O mais importante é tomar essa decisão de forma consciente e atenta.

Lorenzo: Outra coisa que eu acrescentaria é que a maioria das pessoas foca em alguma dieta ou exercícios, ou pelo menos pensa “oh, eu preciso me exercitar mais e comer mais disso e menos daquilo”. Mas elas tendem a esquecer do componente do estresse. O estresse é importante porque, em um nível biológico, pode sabotar os benefícios que você está conquistando nas outras áreas. E torna mais desafiador comer, beber, dormir e se exercitar, porque diminui a motivação e faz de você um louco por alimentos doces altamente calóricos.

"Há evidências de que os aspectos do mix de seis, em particular a dieta, podem influenciar no risco de câncer""

Lorenzo explica como o câncer também é um problema social
Uma coisa que chama a atenção no livro é que, embora o câncer seja algo muito individual, também é social: tem relação com a maneira como a sociedade é estruturada. Deveríamos encarar a doença dessa forma em vez de algo que simplesmente pode acontecer com um indivíduo? Como lidar com isso enquanto sociedade?

Lorenzo: Não há dúvidas de que o câncer está relacionado ao ambiente social. Podemos afirmar que 5% dos tumores malignos ocorrem devido a uma mutação genética hereditária. Isso significa que há uma anomalia nos genes dos seus pais que você pode acabar herdando e que podemos analisar se está presente no sangue. Essa mutação modifica o comportamento celular, o que não significa, contudo, que você vai desenvolver câncer; apenas que o risco é maior.

Há evidências de que os aspectos do mix de seis, em particular a dieta, podem influenciar no risco de câncer, inclusive se você for positivo para alguma mutação genética. Então, pelo estilo de vida ter tanta influência, é uma questão social — especificamente em relação às indústrias alimentícia e petroquímica, e todas as toxinas que são colocadas na comida, nos produtos de beleza. O BPA [sigla do composto bisfenol A] e alguns [outros] agentes contidos nos plásticos são conhecidos por serem fatores de risco para diferentes cânceres. Há ainda os corantes de refrigerantes, e todos eles são cancerígenos. Basicamente, todo mundo está sendo convocado para remover as toxinas desses produtos. É algo que está acontecendo e mostra que isso é, sim, uma questão social.

Por que parecer ser mais fácil convencer as pessoas de que é melhor investir em encontrar curar ou tratamentos para o câncer em vez de gastar a mesma quantia, ou talvez menos, em prevenção e mudança de hábito?

Alison: Eu diria que é porque há muitas grandes entidades trabalhando contra esse modelo. Apesar disso, acredito que uma mudança está acontecendo lentamente. Estamos vendo na América do Norte que as pessoas estão cada vez mais interessadas em produtos saudáveis, eles estão virando mainstream [termo em inglês para algo que é popular, comum]. Então, há uma lenta mudança além daquele modelo, mas infelizmente as grandes empresas não ajudam desde a base.

Lorenzo: Da perspectiva farmacêutica, de uma indústria multitrilionária, eu não diria que há intenção de que as pessoas desenvolvam câncer para que lucrem. Mas o modelo, o incentivo para eles nos Estados Unidos, é tratar as pessoas. É assim que os hospitais ganham dinheiro, tratando as pessoas. As farmacêuticas não lucram a menos que desenvolvam remédios para tratar doenças. E não haveria nada de errado se tivéssemos, por exemplo, 50% ou 60% a menos de pessoas com câncer no mundo. Se as pessoas fossem saudáveis, ainda precisaríamos de remédios para tratar a outra parcela da população que terá câncer estatisticamente ou por algum outro fator que não conhecemos direito. Mas não há dinheiro envolvido em prevenir doenças, então ninguém é incentivado a fazê-lo

"Com o apoio das pessoas com quem se importa ou se relaciona, você pode alcançar um impacto significativo na sua saúde""

E vocês concordam que as pessoas tendem a pensar que nunca vai acontecer com elas, por isso basta investir em cura; e já que não vão precisar, não mudam seus hábitos?

Lorenzo: Acredito que a maioria pensa que o câncer ocorre nas famílias e que não há nada a fazer para preveni-lo. Isso é parte da inspiração para escrever o livro. As pessoas simplesmente não sabem que a maioria dos cânceres pode ser prevenida. E essas mesmas ações inclusive podem ajudar a viver mais e melhor, mesmo com câncer.

Outro aspecto que eu acredito existir é o fato de que nosso cérebro não foi programado para prevenir algo ruim no futuro. Nossos processos cognitivos costumam trabalhar com prazos menores. E, infelizmente, a gratificação imediata que obtemos da comida, de não fazer exercícios e das coisas viciantes — até aquelas aparentemente benignas, como as redes sociais — se sobrepõe à prevenção de um futuro negativo. Não temos a tendência de ver um longo horizonte de eventos.

Quais são os principais equívocos que as pessoas têm sobre o câncer e como eles podem ser resolvidos?

Lorenzo: Acho que o mais comum de todos é que o câncer é uma doença genética e que não há nada a se fazer quanto a isso. A maioria das pessoas sabe que fumar causa câncer. Mas a maioria não sabe que o sobrepeso e a obesidade causam mais de 12 tipos diferentes de câncer. A maior parte tampouco tem ciência de que o álcool é a causa de 12 tipos de câncer. E acho que os exames periódicos podem ser tecnicamente chamados de prevenção secundária. Quer dizer que você não está prevenindo o câncer, mas apenas descobrindo-o mais cedo.

Alison: Além disso, creio que as pessoas costumam confiar demais na pílula que elas vão tomar para tratar o câncer. Elas pensam: “farei o tratamento convencional e só depois me preocupar com meu estilo de vida.” Mas elas não percebem o impacto gigante que essas pequenas mudanças podem ter tanto para o tratamento e os resultados do diagnóstico quanto para a prevenção.

Vocês acreditam em um mundo livre de câncer?

Lorenzo: Acredito que nunca teremos essa resposta, porque sempre teremos a chance aleatória. Não sei em que percentual essas probabilidades poderiam ser mínimas, 10%, 25% no máximo? Não conseguiremos eliminar 100% dos cânceres, mas podemos evitar a maior parte deles, com certeza.

Alison: Concordo. Acho que seria extremamente difícil erradicá-lo completamente, mas creio que conseguimos reduzi-lo de forma significativa. E quem sabe o que virá no futuro? O que considero empolgante e esperançoso é que existem coisas que cada um de nós pode fazer hoje, começando agora mesmo, para mudar a maneira como vivemos de forma positiva e nos sentirmos bem. E elas têm impacto nos nossos corpos em um nível celular. Isso não é difícil, basta mudar a mentalidade. Com o apoio das pessoas com quem se importa ou se relaciona, você pode alcançar um impacto significativo na sua saúde.

Fonte: Revista Galileu 



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