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E se o cabelo não caísse

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 09/05/2017 - Data de atualização: 09/05/2017


Há algum tempo, alguém me perguntou se eu achava que o câncer seria visto de forma diferente se o tratamento quimioterápico não causasse a queda dos cabelos. Será que as pessoas teriam menos medo de falar a palavra CÂNCER se o tratamento não causasse a queda do cabelo?! Respondi imediatamente: não tenho dúvidas que sim! Mas a reflexão me levou muito além da pergunta.

Perder os cabelos é estar exposto, desnudo sob os holofotes que são os olhos dos outros. Está vendo aquela menina ali? Ela está com câncer. Os vizinhos, o motorista do ônibus, as crianças indo para escola – todo mundo enxerga que você está em tratamento. E você não tem motivo algum para ter vergonha disso! Câncer é apenas uma doença difícil. Mas a queda dos cabelos faz com que você seja obrigada a expor ao mundo algo muito particular seu, em um momento em que, muitas vezes, nem você mesma se adaptou à sua nova realidade. Além disso, é no momento em que o cabelo se vai que a ficha cai junto: sim, isso está acontecendo. E é com você. E é agora.



O cabelo é muito mais do que apenas fios: ele faz parte da imagem que você tem de si mesmo, e que os outros têm de você. Ele faz parte de quem você é – e quando ele cai sem pedir licença, você precisa de algum tempo para descobrir quem é essa nova pessoa que observa no espelho. Não somos Sansão, mas precisamos redescobrir de onde vem nossa força e sensualidade senão dos cabelos.

Os cabelos sempre foram uma fonte de poder, mistério e identidade social – não é à toa que muitas religiões exigem que as mulheres cubram suas madeixas ao andar nas ruas, ou que certos penteados sejam moda apenas entre adolescentes. Não era apenas por motivos de higiene que os prisioneiros tinham a cabeça raspada ao chegar ao campo de concentração: sem cabelos, sem documentos, sem seus pertences, eram identificados apenas por um número. Eles não eram mais quem eram antes de entrar ali. Você sabia que essa humilhação é corriqueira nas favelas do Rio de Janeiro? Mulher que trai o marido, briga ou é homossexual tem a cabeça raspada, para "aprender a se comportar” e servir de exemplo às outras. No período pós guerra, mulheres francesas que tiveram relacionamentos com alemães durante a ocupação tinham seus cabelos raspados como forma de punição e humilhação.

Outras doenças difíceis, como a AIDS, por exemplo, não expõe tanto as pessoas aos olhar alheio. Não que seja fácil descobrir-se doente – mas ao menos é algo que você pode guardar para você, e dividir apenas com pessoas de confiança ou com quem mais você quiser. Tornar pública sua vivência é uma escolha, e isso faz com que você mantenha algum controle sobre o que está acontecendo.

Nesses quase três anos de blog, já conheci muita gente vivenciando o câncer. Gente que não se importou em perder o cabelo, gente que achou a queda do cabelo o momento mais difícil do tratamento, gente que se adorou careca, gente que dormia de peruca para não precisar se ver sem cabelos. Conheci também algumas pessoas que tiveram câncer e não perderam os cabelos. Não tenho dúvidas de que essas pessoas enxergaram a doença de uma forma totalmente distinta da de quem ficou careca.

Primeiro, porque as pessoas leigas acreditam que, se o cabelo não caiu, a doença não é tão grave assim – e essa ignorância poupa quem foi diagnosticado dos olhares de piedade. Segundo, porque a pessoa que não perde os cabelos pode escolher para quem, quando e como irá contar o que está acontecendo – o que é uma bela maneira de empoderar-se da situação. Terceiro, porque quando o tratamento acaba, ele acaba. Talvez você tenha cicatrizes com as quais irá aprender a lidar mas, a grosso modo, as mudanças físicas são menores (ou mais camufláveis) do que esperar os cabelos crescerem novamente – ou, pelo menos, o cabelo é um assunto a menos para se ocupar.

Felizmente, o tratamento contra o câncer está ficando cada vez mais individualizado, menos nocivo e mais focado nas células tumorais. Muitas das novas medicações já não causam a queda dos cabelos – como o Brentuximab, que utilizei em 2014. Posso dizer, por experiência própria, que não ter enfrentado a perda dos cabelos em meu terceiro tratamento contra o câncer foi, sem dúvida, uma maneira de torná-lo muito mais leve para mim. É claro que as mudanças psicológicas quando se encara o câncer acontecem sim – com ou sem a queda do cabelo – mas atenuando-se as mudanças físicas, o câncer passa a ser o que realmente é: apenas uma doença.

Beijos!
Flavi



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