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Diagnóstico precoce auxilia no tratamento de câncer em homens, que são resistentes a exames

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 04/02/2019 - Data de atualização: 04/02/2019


Isaac Soares teve câncer de testículos aos 19 anos. Hoje, aos 29, é formado em educação física com especialização em oncologia Foto: Arquivo Pessoal

RIO - Foi ao pegar o celular no bolso e ajeitar a calça que Isaac Soares, na época com 19 anos, sentiu um caroço em um de seus testículos. Antes, amigos comentavam como ele havia emagrecido, e a justificativa era a pesada rotina no serviço militar e no curso de Educação Física.

— O caroço não me incomodava. Fui ao médico e, depois do ultrassom, não dava para saber se era um tumor. Um outro exame mostrou meu Beta HCG ( indicador que aponta possibilidade de câncer ) alterado. Aí tudo assusta. Comecei a pensar que não queria que ninguém mexesse em mim. O médico me orientou muito bem, e o medo foi diminuindo — lembra Isaac, aos 29 anos.

Durante a cirurgia, a biópsia feita na hora não foi conclusiva. O médico indicou que a retirada do testículo era a melhor opção para confirmar se era câncer e, em caso positivo, em que nível estava:

— No meio da própria operação, o médico me explicou que colocaria uma prótese no lugar e isso não afetaria minha vida. E foi realmente o que aconteceu. Depois, viram que era um câncer testicular. Não imaginava eu, jovem, ativo, sem histórico na família, com aquela doença.

A uro-oncologista Mariane Fontes, da Oncoclínicas, afirma que este tipo de câncer é comum exatamente na faixa de idade que Isaac tinha e que a falta de conhecimentos sobre técnicas de prevenção dificultam diagnósticos em estágios iniciais.

— As mulheres têm o hábito e uma série de campanhas que tratam do exame de toque. Com os homens não há essa cultura e nem essa campanha. É um câncer fácil de curar, mas com tabus sobre a sua prevenção — afirma a médica.

O caso de Isaac não foi tão simples. Um mês depois da cirurgia, ele sentiu falta de ar e descobriu que já estava com metástase no pulmão. Trancou a faculdade, mudou-se de Vitória da Conquista para Salvador para se tratar e viu cabelo e barba caindo.

— Senti a vida indo embora. Depois veio a cura, quase como um milagre, e foi um crescimento interno. Este ano faz dez anos do diagnóstico. Hoje tenho formação em Educação Física com especialização em oncologia. Passei a fazer campanha contra o tabu de fazer exame. Temos que romper esta barreira — defende Isaac.

Doença crônica

Não é só este tipo de câncer que possui resistência nas técnicas de prevenção entre homens. Se o de testículos afeta diretamente uma parcela mais jovem da população, o de próstata tem uma taxa de presença em 83% dos homens acima de 70 anos. E o exame de toque continua sendo visto com preconceito.

— Muitos homens ficam com a ideia de “vou ser violado”. A conscientização tem que ser através dos benefícios. O exame é muito importante. Hoje podemos tratar o câncer de próstata como uma doença crônica. Você vive com ela e pode viver bem. Tenho pacientes com 20 anos de doença e uma vida normal — relata Mariane.

Foi com esse pensamento que Newton Anielo, de 73 anos, não teve preconceito em fazer o exame desde os seus 50 anos e, por isso, quando a doença foi diagnosticada, pôde tratar dela ainda no estágio inicial.

— A prevenção é muito importante. Sempre tive essa preocupação porque meu pai morreu com câncer de próstata. Nunca tive esse tabu de fazer exame. Tenho exemplo de amigos que se recusavam a fazer. Alguns morreram, outros estão em tratamentos delicados. Sofrendo mesmo. É melhor cuidar da sua saúde com o toque do que ficar moribundo. Médico não é bicho. Tem que enfrentar com altivez a doença — afirma.

Riscos são menores

A médica Mariane Fontes ressalta que hoje os procedimentos de tratamento são menos invasivos:

— A cada dia temos novas técnicas de cirurgias para próstata e testículos que diminuem riscos de impotência e infecções — afirma. — A palavra câncer ainda assusta demais as pessoas. É entendida como igual a morte. Não se pode mais ver a doença desta maneira.

Após dois anos de tratamento, Newton concorda com a médica e diz que a prevenção o faz pensar em viver muito mais.

— Prevenir é saúde. Falo isso para amigos, para os mais novos. Cheguei aos 73 anos me prevenindo. E posso chegar a muito mais — diz ele, ressaltando que o tratamento foi fundamental para que continuasse cuidando de seus dois filhos e três netos.

Matéria publicada pelo O Globo em 04/02/2019



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