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Coronavírus: Pandemia provoca diminuição no tratamento de outras doenças

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 04/05/2020 - Data de atualização: 04/05/2020


O sentimento de pânico e o medo de se expor ao coronavírus estão fazendo com que algumas pessoas deixem de dar a devida atenção a problemas que demandam cuidados sérios, como câncer ou doenças crônicas. A Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde) alerta para a questão. Segundo o secretário executivo da instituição, Bruno Sobral, enquanto hospitais que tratam doenças infectocontagiosas, como a Covid-19, estão cheios, a demanda por leitos clínicos em outras especialidades teve queda de 50% no Brasil. “Tem serviços, como na área de oncologia, em que a procura caiu 70%. Por outro lado, as unidades de terapia intensiva (UTIs) estão cheias.”

Nesta semana, a confederação vai iniciar uma campanha para alertar as pessoas sobre a importância de manter a continuidade dos tratamentos. “Algumas cirurgias são adiadas com razão, mas outras precisam ser feitas. As pessoas têm medo de procurar o serviço de saúde, mas recomendamos conversar com os médicos”, aconselha. “Cirurgias eletivas têm indicação para que não sejam feitas. O que preocupa são terapias como oncologia, toda a parte de acompanhamento de pacientes crônicos e hemodiálise. Tanto procedimentos, quanto consultas e exames são fundamentais que sejam mantidos”, frisa, Bruno Sobral.

Nos hospitais, acumulam-se resultados de biópsias nas estantes, ao mesmo tempo em que muitos adiam tratamentos que deveriam iniciar imediatamente, como quimioterapia. O hematologista Eduardo Flávio Ribeiro, coordenador do centro de hematologia do Hospital Santa Lúcia afirma que 15 pacientes com suspeita de tumor decidiram não seguir com o processo de investigação, neste momento. Outros 10, com diagnóstico estabelecido e indicação para início de tratamento imediato, optaram por aguardar até 40 dias para começar, a contragosto da equipe médica.

A maioria dos casos envolvem tumores de mama, transplante de medula e procedimentos gastrointestinais, como colonoscopia. “Eles evitam ir ao hospital, com medo de se expor ao coronavírus. Coincide que a faixa etária de maior incidência oncológica é em uma população de idade mais avançada, a mesma que é mais vulnerável às formas graves da Covid-19”, pondera. “Meu conselho é: converse com seu médico, porque cada caso deve ser avaliado de maneira individualizada. Alguns tipos de tumores permitem aguardar tratamento, mas outros, de urgência, podem evoluir para metástase ou comprometimento de determinado órgão”, alerta.

Esclarecer os fatores para a continuidade do tratamento de um tumor foi crucial para Ângela de Bastiani, 48 anos. A bancária faz imunoterapia há dois anos, e, durante a pandemia, questionou a médica se poderia parar com a medicação. “A princípio, achei que não era para sair (de casa) em hipótese alguma. Mas ela me explicou que, com os cuidados necessários, poderia continuar o tratamento sem receio”, disse Ângela. “O que aprendi até agora é que o mais importante é buscar o equilíbrio. Não dá para abrir mão do tratamento de jeito nenhum”, acrescenta.

Cuidados

A continuidade do tratamento é vital em casos de pacientes que precisam de hemodiálise, procedimento de filtragem do sangue para retirar toxinas e excesso de água no organismo. “A técnica é indicada quando há perda significativa ou total das funções renais. Assim, os pacientes não podem parar de fazer o tratamento, pois se o sangue não for filtrado, as impurezas podem chegar ao pulmão”, explica a nefrologista Maria Letícia Cascelli. Apesar da continuidade nos atendimentos, a clínica onde a médica trabalha adotou algumas mudanças frente ao coronavírus. “Alteramos a posologia da hemodiálise para conseguirmos diminuir a frequência dos tratamentos, ou seja, quem tinha que vir quatro vezes por semana, agora deve vir três vezes”, esclarece Maria Letícia.

Apesar do medo no início da pandemia, a escriturária Simone Regina Silva, 47, continuou as sessões de hemodiálise. Diagnosticada há três anos com insuficiência renal crônica, durante a fase de isolamento social, ela passou a fazer o tratamento três vezes por semana, em sessões de quatro horas. Antes, eram quatro vezes por semana, durante três horas. “Já me adaptei à nova rotina e respondi bem às mudanças”, conta Simone. A luta contra o câncer de mama também faz parte da história de Simone, desde 2018. “Faço quimioterapia de 20 em 20 dias, uma vez por mês. Durante esse período, os cuidados foram intensificados para evitar qualquer tipo de contaminação”, ressalta. Além do tratamento, o bom humor é essencial para a cura. “Sinto falta da rotina de antes da pandemia, mas busco aproveitar ao máximo a vida enquanto estou em casa. Sorrir sempre, e não ficar parada”, ensina.

  • Três perguntas para Bruno Ferrari

Oncologista, fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Oncoclínicas

Qual a recomendação de manter o tratamento oncológico durante o período? Há casos em que ele pode ser suspenso?
A primeira medida é procurar se informar bem com um especialista, e esclarecer se pode ou não abandonar o tratamento. Alguns casos como exames, por exemplo, podem ser prorrogados e, às vezes, não. Mas só quem pode definir isso será o médico que acompanha o paciente.

Qual a recomendação para as pessoas que apresentarem sintomas de câncer durante a pandemia?
Se a pessoa está com um sintoma, precisa procurar um médico. Também é importante não deixar de fazer os exames de rotina. A gente sabe que a incidência de câncer tem aumentado, assim como a queda da mortalidade. A consequência está ligada ao diagnóstico precoce das doenças. O ideal é que a gente pudesse prevenir o câncer, mas na falta da prevenção primária, o diagnóstico precoce é a nossa maior arma de cura.

Os pacientes com câncer devem tomar algum cuidado diferente dos indicados para prevenção do novo coronavírus?
Eu costumo dizer que o paciente oncológico é muito educado. Porque, como o tratamento da doença pode levar a imunossupressão, ele já está acostumado com hábitos de higiene. Então, neste período, os cuidados não mudam. A gente fala para que o paciente tenha uma vida normal, mas com as recomendações necessárias.

Fonte: Correio Braziliense

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